Carne x Meio Ambiente

Texto publicado no Jornal Metro, de 08/06/2010, por Cesar Giobbi

A ONU e o Partido Verde introduziram um assunto que é tabu para os brasileiros e para muitos outros povos: o hábito de comer carne, independentemente de fazer bem ou mal, é antiecológico. Depois do cigarro, cujo combate e banimento levou uns 30 anos para ser levado a sério como política pública, o vilão da vez agora é a carne. Vão começar com a vermelha, pois o rebanho bovino/ovino/suíno é quase tão grande quanto a população mundial: come e bebe muito mais e provoca muito mais danos ao meio ambiente e à atmosfera. Mas depois virão as demais.

É claro que não é pra já.  Todos os interessados nos lucros com a carne, mais os carnívoros inveterados, vão esbravejar, espernear, sapatear, e conseguir, com isso, adiar o problema.  Talvez leve algumas décadas. Mas se o cidadão do mundo se convencer de que será melhor para ele e para todos evitar a carne, ela acabará, mais dia menos dia, banida dos cardápios. Ou pelo menos drasticamente restringida. Na era globalizada, estes processos são mais rápidos.

Lembro da primeira vez, ainda na qualidade (se é que se pode usar este termo neste caso)  de fumante, em que me colocaram de castigo, num restaurante natural de Nova York. Na porta da cozinha. Foi bem no fim dos anos 70. No começo dos anos 80, em outra viagem aos Estados Unidos, percebi que o fumo já era mal recebido na maioria dos restaurantes e em alguns locais públicos. Mas em Washington, por causa do corpo diplomático, o melhor lugar dos restaurantes ainda era reservado aos fumantes. Como mandar o embaixador da Turquia ou da Espanha para a porta da cozinha? Ainda no final da mesma década, no entanto, o fumo seria banido de todos os locais públicos americanos.  Depois, a mesma atitude foi se espalhando pelo mundo.

Agora a coisa é diferente. A ONU levanta o problema, com números inquestionáveis, e os partidos verdes, os ecologistas, os ambientalistas, os vegetarianos do mundo todo aplaudem e se colocam em campanha.  Apesar do nosso Partido Verde abraçar a causa,  duvido que a candidata à presidência, Marina Silva, agregue este argumento ainda controvertido à sua plataforma de campanha. De qualquer maneira, só quero ver como reagirão brasileiros, argentinos, espanhóis, australianos, americanos, apenas para começar a lista dos povos carnívoros e grandes produtores. Não vai ser fácil. E esta batalha só será vencida com consumo consciente.

Eu como carne, sim. Todas elas. Mas posso passar dias sem comer. Assim como gosto de madeira na decoração das casas. Mas me incomoda cada vez mais seu uso desnecessário, exagerado, mesmo com todas as certificações possíveis. A gente vai ficando consciente, as informações vão entrando na nossa mente, à revelia. Um dia, nos percebemos convencidos e prontos para atitudes mais ecológicas e saudáveis.

Quanto ao bem e ao mal que a carne pode fazer, conversando com médicos, a gente ouve de tudo. Quem tem colesterol alto, ou inclinações do gênero, congênitas ou não, já sabe que deve se abster de carne vermelha. Agora ouço que as carnes, menos a de peixe, dificultam a ovulação. Ou seja, mulheres que querem engravidar, segundo esta teoria, deveriam evitar proteína animal. Não é necessário, segundo os médicos ouvidos, parar de comer carne vermelha. Apenas moderar sua ingestão a duas vezes por semana, indo buscar proteína em peixe, soja e feijão, leite integral, couve e beterraba, por exemplo.

Não vai faltar quem grite: “Meu avô morreu com cem anos comendo toucinho todo dia!” O que é que a gente pode responder? “Sorte dele, uai!”  Só que a questão não é mais apenas esta: arriscar ou não a saúde.  A conversa agora é salvar a humanidade e o planeta.

Texto publicado no jornal Metro de 8 de junho de 2010.

Visite o site do autor: http://cesargiobbi.com.br/

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